Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

L.C. Ferreira Word

Porque tudo o que conheço não chega, porque nunca direi vezes suficientes e porque sim...

L.C. Ferreira Word

Porque tudo o que conheço não chega, porque nunca direi vezes suficientes e porque sim...

A Cegueira do Coração faz Luto

por lcferreira, em 14.05.11

 Não desistas de mim.

 Era tudo o que conseguia dizer, tudo o que conseguia pensar. Não, mentira. Ele tinha passado a parte do simples pensar, tinha passado para a parte do pensamento obsessivo.

 Precisava dela e ela não estava, tinha partido. Tinha partido, assim como o avisara tantas vezes, vezes a que ele não dera importância.

 E agora, agora precisava dela, do seu olhar perscrutador e do som da sua voz. Precisava que o viesse salvar, dele mesmo, do seu jeito monótono de viver, da rotina dos dias e da solidão das noites. E ela não vinha, ela não estava mais ali, do lado dele, a olhar por ele, a dizer-lhe o que fazer, ela tinha partido.

 

 Quando? Quando partira ela, que ele, envolvido em si mesmo, não percebera que era a sério, que não voltaria mais? O que tinha sido o ponto maior, que ele não reparara, essa farpa que levara à separação do amor? Soubesse ele qual e não a teria atiçado.

 

 Agora, era tarde. Era?, pensava, cego pela falta que não imaginava que ela lhe fizesse.

 Talvez ainda o aceitasse, doido de dor como estava, corroído pelo vazio dela na sua vida. Sim, talvez seja possível, dizia para consigo.

 

 Correu, voaria se pudesse, foi-se quedar na porta dela.

 A pulmões cheios gritou: "Não desistas de mim!", gritou uma e outra vez, até ela vir espreitar à janela, a chorar.

 

 Ela não chorava como choram as mulheres quando os homens as surpreendem e emocionam, não, não era esse tipo de choro.

 Por entre as lágrimas, ele viu a dor tatuada nos seus olhos, viu-a tão viva que doía olhá-la directamente nos olhos. Não podia ser uma coisa nova, nada novo tem aquele aspecto, aquela dor fazia parte dela há muito tempo. E ele?, como não vira?, como não conseguira perceber que a infelicidade lhe estava a sugar a juventude? Tinha sido tão cego, tão ocupado e cego.

 

 Perdera-a. Conseguia vê-lo, por entre o choro enlutado dela.

 

 Caíu de joelhos no chão, num grito que a urbe abafou. Ela saiu da janela, ele morreu um pouco.

 

 E os dias não mais foram de sol.

 

 

Queda do Amor

por lcferreira, em 04.05.11

 Todo o rosto estava coberto de sal. O coração minguado pela dor e desespero de se encontrar sozinho.

 

 No meio do vazio que a rodeava e engolia, ela levantou-se num silêncio sepulcral, de faces secas e enrugadas.

 Pé ante pé, como uma criança que aprende a andar, devagar, dirigiu-se à janela do quarto.

 

 Oh!, quanto amor vira fazer aquele quarto, físico e emocional. Quantas palavras de afecto e gestos romãnticos ali se deram, no meio dos lençóis e das almofadas. E agora...apenas a melancolia e o abandono vestiam as paredes sem quadros, a cama era a imagem king size da depressão, o amor tinha mudado de morada.

 

 A janela, que brindara esse amor acabado com raios de sol e olhares de prata, era o destino incontornável que ela escolhia.

 Ela escolheu. Escolheu a saída fácil, sabendo que difícil é estar vivo, aguentar os dias e as noites, tentar. Ela escolheu deixar de tentar, quis fugir permanentemente da dor. Abeirou-se do peitoral onde nunca houvera canteiros de flores e olhou para baixo.

 

 Lá em baixo, as pessoas andavam como se a dor dela não existisse, como se fosse certo que o amor dela a tivesse abandonado sem dó nem razão. Andavam felizes, sem se importarem que a felicidade lhe tivesse sido arrancada do peito.

 

 Fechou os olhos e inalou a humidade do dia.

 Enquanto expirava, em silêncio, deixou-se cair, descalça e livre.

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2013
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2012
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2011
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2010
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D