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L.C. Ferreira Word

Porque tudo o que conheço não chega, porque nunca direi vezes suficientes e porque sim...

L.C. Ferreira Word

Porque tudo o que conheço não chega, porque nunca direi vezes suficientes e porque sim...

Lisboa das Calçadas, Lisboa das Baladas

por lcferreira, em 02.01.11

 Lisboa tem sabores, cores e gentes que em parte alguma do mundo se encontram.

 Ruas e mar, tem cavernas de saber, tem tabernas de beber.

 

 Lisboa vive das vozes das gentes que a percorrem e descobrem, ora o que tem de magnífico, ora o que tem de mais primitivamente macabro.

 

 Lisboa não é mulher como as mulheres de carne e osso, tem curvas que dão em sangue, tem honestidade criminosa nas mãos. É crua, despida, cruel e ilusionista. Lisboa não se importa de o ser, não o fosse ela e seria quem a desempenhar tal papel?... Dotada de um altruísmo poético e trágico, Lisboa se encontra e se esconde por entre as gentes, por entre os passos das gentes.

 

 As gentes de Lisboa, as naturais, as naturalizadas, as que nunca dela saíram, as que não o conseguem, as que a escolheram como lar, Lisboa é mãe e madrasta de milhares de almas condenadas. Que sujam a calçada, que a limpam, que nela sangram e choram, que dela levam a beleza e o brilho, estas gentes de todas as cores, com palavras impuras e hábitos egoístas.

 

 Lisboa tem loucos, tem-nos nos cantos escuros dos prédios ruídos onde ninguém os incomode, incomodados por serem algo com que nunca encheram os sonhos infantis. Sim, cada marginal acobertado pela manta lisboeta, já foi uma criança. Herdeiras da rudez de um pai ausente ou da nudez de uma mãe meretriz, ou pelo contrário, vítimas da injustiça de um sistema falido, obrigadas a serem donos do seu próprio destino, da pior maneira possível.

 

 E Lisboa, poema de um fado rouco, não os renega, esses marginais, criminosos, traficantes, atacantes, ladrões, corruptores, mendigos, vagabundos, adúlteros. Esses homens de fogo que arde os olhos, essas mulheres sem embaraço nem dignidade. Ela, Lisboa, não os enxota do seu regaço, não os julga, não os encarcera. Faz das suas calçadas a casa de todos eles, o lar de todos eles.

 

 

 Lisboa tem coração demais para o seu próprio bem e basta olhá-la para o reconhecer. As balustradas carcomidas, as fachadas grafitadas, as janelas partidas, os passeios esburacados, ruínas por todo o lado.

 E, no entanto, deixa um cheiro de sal no ar, um cheiro que diz que aqui é casa, aqui é lar. Deixa magia por entre o ser das gentes malditas e das gentes morais.

 

 

 Lisboa tem encanto, sempre. Mesmo que lhe falte perfeição.

 

 

Uma Janela é mais do que uma Janela

por lcferreira, em 04.10.10

 Pela janela mal aberta e pelas frestas de um estore corrido, chegou um cheiro de mar através do som de uma gaivota, asas que batem e cantam as odes das águas de um Tejo que nasce e morre nos fados queimados dos corações das gentes.

 Magia e saudade, misto de emoções que brotam e desaguam noites e dias afora.

 Feridas as noites, roucos os dias.

 

 A janela caiu de frente para as margens desse eterno amante de Lisboa, cacos do meu fado taciturno. Mistérios contados e recontados, desmistificados, eu exposta em rimas e traquejos de uma voz que dita o que sou e não sou eu que a tenho.

 

 O rio galgou o passeio, veio buscar os cacos que eram dele também, foi-se a janela de vez, calou-se o fado.

 

 Sem fado, sem a lembrança dos meus desamores, dos infundados medos e das notas graves, fico eu, sozinha em mim e no futuro de mim. Sem janela para me resguardar do mundo grande, feio e mau, sem protecção.

 

 Sou tudo o que tenho para dar, chegando ou não, sou mais do que seria se não tivesse um Fado em qualquer altura da minha vida.

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